Transfofa em Blog

Um espaço especial e pessoal, para dar relevo a cada momento único - Bem Vind@ ao meu Blog!

terça-feira, Abril 14, 2009


No passado domingo de Páscoa saíu uma reportagem no Diário de Notícias com o título de “Lei portuguesa proíbe que transexuais engravidem”.

Aproveitando o caso mediático de Thomas Beatie (mas não referindo o caso mais recente de Rubén Noé, um transexual espanhol grávido de gémeos, nem mencionando os outros casos anteriores a Thomas Beatie), refere que em Portugal tal caso nunca poderia acontecer, pois a lei portuguesa obriga a quem fizer estas cirurgias a retirar o útero e os ovários.

Esta lei, no acto da mudança legal de nome e género, não pode deixar de ser notada pelo total e completo desrespeito que revela em relação aos direitos fundamentais de qualquer ser humano: o respeito pela identidade de género das pessoas em questão e o respeito por um dos mais básicos direitos humanos de qualquer cidadão de qualquer país, o direito a gerar descendência.

Com efeito, a comunidade médica que ainda pensa que uma pessoa transexual tem de querer “eliminar os órgãos sexuais de origem” é um tipo de pensamento muito comum a todos os psiquiatras e psicólogos que fizeram os seus estudos há uns 50 anos atrás, mas que, apesar da evolução da ciência e das mentalidades, estagnaram nesse tempo, não acompanhando a evolução científica e mental da humanidade. Hoje em dia já se sabe que qualquer cirurgia é um efeito da transexualidade e não uma causa.

Este mesmo tipo de pensamento reflecte indirectamente as antigas classificações de transexualidade primária, secundária, etc, que em muitos casos somente servia para não poucas vezes destruírem a vida e as aspirações de muitas pessoas transexuais que não rejeitavam completamente a genitália com que nasceram. Qualquer pessoa que tenha o azar de mostrar algum tipo de dúvida sobre as cirurgias tem o seu processo automaticamente parado. Claro que nenhuma pessoa transexual hoje em dia mostrará qualquer tipo de dúvida, mesmo que a tenha. Isto claramente demonstra um total e completo alheamento da realidade transexual, apesar de muito terem “estudado” pessoas transexuais estes médicos e licenciados, que não se importam minimamente com a identidade de género e com os sentimentos das pessoas, unicamente importando-se com a vontade ou não de fazerem as cirurgias de redesignação sexual.

Também não deixa de ser curioso que tenham entrevistado o Dr. Santinho Martins, que quando iniciei o meu processo clínico no Hospital Júlio de Matos já se encontrava reformado, em 2005, quando comecei o meu calvário pelo dito hospital, portanto sendo uma personagem que nunca vi, e já lá estou há 4 anos.

Obviamente que, como são os mais antigos (e mais desactualizados) profissionais que detêm as rédeas do poder nos hospitais que tratam destes casos e na Ordem dos Médicos, não admira que a maioria dos “especialistas” consultados afirme que “"homens grávidos" como Thomas Beatie nunca passaram de mulheres "disfarçadas"”. Ainda há bem pouco tempo também se eliminavam dos processos clínicos as pessoas transexuais que não fossem heterossexuais, num pensamento muito similar a este demonstrado pela maioria dos “especialistas”. Aliás, sei que ainda muitos destes “especialistas” vêem a homossexualidade como uma doença, apesar de legalmente não o poderem demonstrar, considerando que a sua eliminação das chamadas doenças foi somente por motivos políticos.

Ao praticarem e obrigarem as pessoas transexuais a tratamentos abusivos e lesivos da liberdade e identidade de qualquer pessoa, negam direitos humanos básicos a esta minoria, sem pudores de qualquer espécie e imunes a qualquer crítica, esquecidos da primeira regra fundamental de qualquer ciência humana: a capacidade de se duvidar do estabelecido.

A coisa foi de tal maneira forte que muitas pessoas transexuais interiorizaram este tipo de pensamento discriminatório e abusivo dos direitos de qualquer pessoa. E aqui discordo total e completamente da visão que Ruth Bianca, mais uma vítima desta maneira de pensar, tem sobre as pessoas transexuais. Acredito que muitas pessoas transexuais, por muitas razões tais como o estigma associado à transexualidade, a vergonha de se ser transexual, o medo de se ser discriminado por se ser transexual, enfim, muitas e muitas razões existirão, queiram esquecer o passado, mas ainda bem que não são todas, pois como disse George Santayana “Aqueles que não conseguem relembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

É com os erros do passado que nos vamos aperfeiçoando, melhorando quem somos, evoluindo. O nosso passado faz parte integrante de quem somos, foi ele que formou a personalidade que temos hoje em dia e que nos permite (ou devia permitir) pensar em tudo que fizémos de mal no nosso percurso. E é o somatório da nossa experiência passada que nos permite (ou devia permitir) passar um testemunho melhorado às gerações seguintes. E não é esquecendo o passado que podemos fazer isso, mas sim aproveitando a nossa experiência como vítimas da discriminação em tantos e tantos sectores que devemos pensar “eu tive de pasar por isto, portanto tentemos evitar que as seguintes tenham de passar pelo mesmo”. Infelizmente o pensamento básico expresso por exemplo pelas palavras da Ruth reflectem a dura realidade do “se eu tive de passar por isto as outras que vierem depois que passem também”.

Mas a realidade do que passam as pessoas transexuais não acaba aqui. Por exemplo, como parte do suposto “diagnóstico” (que acaba por nunca o ser, pois no fim do processo recebe-se uma carta da Ordem dos Médicos com uma lacónica autorização para se fazer a CRS, nunca mencionando que a pessoa é transexual, como tal nunca aceitando a identidade de género que devia ser precisamente o fulcro da questão) uma pessoa tem de viver no papel de género que lhe sente pertencer. Se uma pessoa se preocupa com os seus familiares directos, por exemplo, e anda de um modo mais andrógeno para lhes salvaguardar um pouco o sofrimento causado pela situação (sim, não é só a nós que a coisa doi), os psis só dizem que “se é tem que se assumir, quem não gostar, temos pena”. Mas acontece que o homem é um animal social, com laços familiares fortes, e nem sempre podemos pensar de uma maneira egoísta. Temos pessoas que amamos, como qualquer outra pessoa, e não poucas vezes temos de pensar também nos outros. Não somos uns monstros insensíveis como nos querem fazer. E quando pensamos um pouco nos outros, lá vêm os psis com as suas teorias cruas e muitas vezes desumanas, não dando importância ao sofrimento que poderemos causar muitas vezes em quem mais amamos.

E é preciso não esquecer que a discriminação não nos afecta só a nós, atingindo bastantes vezes as nossas próprias famílias. Os pais de uma amiga minha, mulher transexual como eu, desde que ela se assumiu perante a sociedade, perderam a quase totalidade dos “amigos” que tinham. Pessoas que os conheciam há mais de 30 anos, como a mãe daquele que era o melhor amigo dela (que também se afastou), deixaram de lhes falar e viram a cara na rua quando passam por eles. No entanto, para os psis, isto não interessa para nada, e não se pode demonstrar compaixão ou compreensão sob pena do processo parar imediatamente, ou de se prolongar quase indefinidamente.

Outro caso: outra amiga minha, iniciou o seu processo por volta de 1999/2000. Em 2009, ainda está à espera que a segunda opinião venha dos Hospitais Universitários de Coimbra. Ainda outro: outra mulher transexual espera há dois anos pela mesma segunda opinião do mesmo sítio.

A minha segunda opinião, por exemplo, feita no Hospital de Santa Maria, vai ser devolvida pois nem assinada vinha. Vão ser mais meses de espera.

Os endocrinologistas, por exemplo, em relação ao tratamento hormonal, e eu tenho estado sempre a ser seguida por um no Hospital Júlio de Matos, nunca mandaram fazer nenhuma análise à capacidade de coagulação do sangue, que é alterada pelo tratamento.

No final de Março, começei a ter dificuldade e mover a perna direita. Ao fim de uns três dias, inchou desmesuradamente. Numa segunda-feira dirigi-me ao Hospital Garcia de Horta às urgências. Depois de esperar por quatro horas, foi dito aos utentes que não havia prazos de atendimento. Como estava muito desconfortável, regressei a casa.

No dia seguinte lá fui outra vez. Fiquei logo internada até sexta-feira, dia em que tive alta. No papel da alta pode-se ler o seguinte: (...) internada no serviço de Cirurgia Vascular por trombose venosa profunda ilio-femural-popliteia do membro inferior direito total/oclusiva, já com alguns dias de evolução. Antecedentes pessoais de medicação crónica anti-androgénica (Zumenon e Ciproterona). (...) e terminando da seguinte maneira: Deve parar medicação anti-androgénica.

Felizmente reagi muito bem ao tratamento. Mas e se fosse noutro sítio? No coração ou no cérebro? Segundo fui informada, este tipo de azar é relativamente comum em pessoas que façam tratamento hormonal, agravando-se o seu risco com a idade. E no entanto nunca fiz, nem mais nenhuma pessoa transexual com quem eu contactei, análises à coagulação do sangue. Pergunta-se: se se sabe que pode acontecer, nomeadamente às transexuais femininas, porque razão nunca se faz este tipo de análise?

E é com acontecimentos deste tipo, que fazem sofrer quem está connosco e que podem fazer perigar a nossa vida, com que temos de nos haver diariamente. Qual a necessidade de se reforçar estigmas e discriminações ainda por cima? Já não arriscamos a nossa vida o suficiente? Ainda têm de nos proibir de termos filhos, uma vontade básica de qualquer animal? Ainda têm de nos obrigar a divorciar, por exemplo, se formos transexuais e estarmos casados, para que o nosso processo avance, como é exigido pela Ordem dos Médicos ? Mas quem é a Ordem, para decidir por mim ou por qualquer outra pessoa transexual, se deve estar casado ou não? Em que é que o casamento define a transexualidade de alguém? E um homem não pode ter vontade de ter filhos, de gerar descendência? Se ainda tem uma genitália que lhe permita, pois que o faça, é um direito inalienável de qualquer ser humano ou animal, e não se pode permitir que leis discriminatórias impeçam direitos básicos dos seres vivos como este.

Foram aqui descritos muitos casos que nos ferem, pessoas transexuais, e não só a nós mas às nossas famílias e amigos também. É de esperar que façam pensar em muita coisa que nos discrimina e nos fere, e que alterem a visão, quantas vezes ultrapassada e fria, que os chamados “especialistas” têm sobre a transexualidade. Que os ajude a começarem a pensar na identidade de género de cada um e não tanto nas cirurgias, que para uns serão importantes mas que para outros não o serão tanto. E que começem a fazer verdadeiros diagnósticos de transexualidade e não simples autorizações às cirurgias. Não sabem como? Usem a experiência e os avanços que vão acontecendo lá fora, e abandonem as opiniões dignas de um Zucker que ainda grassam por aí.


[Portugal]
Eventos do orgulho LGBT para 2009 em Lisboa e no Porto

Sábado, 20 de Junho
de tarde: Marcha do Orgulho LGBT em Lisboa

Sábado, 27 de Junho
à noite: Arraial Pride 2009, Lisboa

Sábado, 11 de Julho
de tarde: Marcha do Orgulho LGBT no Porto
à noite: Porto Porto 2009

e também não esquecer...

18 a 23 de Setembro
Queer Lisboa 13 / Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa

Toda a informação actualizada regularmente em:
http://www.portugalpride.org/

[Natureza]
David Attenborough quer menos população no planeta
O naturalista britânico Sir David Attenborough defende uma diminuição do crescimento da população do planeta para proteger a vida selvagem e considera «assustador» o aumento demográfico.

[Brasil]
Jornalista escreve livro-reportagem sobre trans inseridas no mercado de trabalho
Segundo a Articulação Nacional de Travestis (Antra), cerca de 90% dessa população sobrevive fazendo programas, mas é justamente esse número de 10% o foco do livro-reportagem “Por um lugar ao sol”, escrito pelo jornalista Neto Lucon depois de uma análise midiática - onde comprovou que as trans sempre aparecem de forma negativa e relacionadas à prostituição. Dividida em seis capítulos, a obra usa cinco histórias de trans de sucesso fora das ruas que devem servir de ótimo exemplo para outras fazerem o mesmo.

[Brasil]
Drauzio Varela diz que trans precisam de políticas de Saúde
O jornal "Folha de São Paulo" publicou no último sábado, 11, um artigo em que o médico Drauzio Varela fala sobre a realidade vivida por travestis brasileiros. Já de cara, Varela afirma que travestis representam a fatia da população que sofre com a mais pérfida das discriminações sociais. "Se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais e outras minorias da sociedade, a somatória não resvalaria os pés do desprezo virulento que a sociedade manifesta pelos travestis", diz o médico.

[Turkey]
Transgender Melek Murdered in Ankara
Friends of murdered transgender and Pink Life LGBT support Association Melek K. (25) protest mounting violence and attacks in recent months. Melek was murdered on 10 April, at her home in Ankara, Kavaklıdere.

[Canada]
Alberta's transgendered bring protest on funding to legislature
Members of Alberta’s transgendered community are ramping up efforts to reverse a government decision ending funding for gender-reassignment surgery.
Transsexuals protest funding cut
Lawsuit in works over sex surgery

[Canada]
Trapped in a man’s body
For 55 years, Emilie Jackson-Edney lived life as a male.
Jackson-Edney held down a construction job and had a wife of 36 years and two children.
He was devoted to his religion.
But something wasn’t right.
Jackson-Edney was a man but did not feel that was her true identity.

[TX, USA/Iran]
Talk examines sex changes in Iran
Iran is second only to Thailand in the number of sex-change operations performed each year, though the fact might not be common knowledge in the U.S.

[CA, USA]
Court Rules Transgender Birth Certificate Restriction Unconstitutional
A state law that allows transgender individuals to change the gender on their California birth certificates but requires them to file to do so where they reside unconstitutionally penalizes those who move out of state, the First District Court of Appeal ruled Friday.
[Blog/Commentary] Common Sense Ruling on Transsexual Birth Certificate Change

[CO, USA]
Udall: ‘Now is the time’ for Congress to pass Matthew Shepard Act
Invoking the brutal murders of Matthew Shepard and Angie Zapata, U.S. Sen. Mark Udall called on Congress “to finally pass” federal hate crimes legislation in an opinion column published Sunday in the Boulder Daily Camera.
Transgender murder trial could spark national conversation
First Transgender Hate Crime Trial Opens in Zapata Murder Case

[CO, USA]
Talk Left blasts federal hate-crimes bill, warns against ‘punishing thought’
With the trial of a man accused of brutally slaying a transgender Greeley woman about to start, gay-rights and anti-violence groups are urging Congress to pass federal hate-crime legislation. But a Denver criminal defense attorney and progressive blogger says not so fast.