Transfofa em Blog

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terça-feira, outubro 04, 2011

Mudar de hospital: a luta
Parte III: Confronto



Há muito, muito tempo, numa galáxia muito muito longe...

Estávamos a 16 de Setembro, e finalmente o processo tinha aparecido.

Depois de tanto tempo perdido com este vai e vem a somar ao tempo perdido por causa da tromboflebite, penso que será compreensível para toda a gente que estava um bocado ansiosa para que as coisas começassem a andar.

A juntar ao facto de se estar a aproximar cada vez mais o fim de ano e ainda não ter o relatório para mudar nome e género, nem saber quem mo iria passar. Também a Lara, com o processo completo desde 2007, se encontrava a aguardar pelo relatório desde Julho. E como o relatório dela deveria ser, em princípio, emitido pelo Prof Dr Rui Xavier Vieira, decidimos pedir para falar com ele. Preenchemos uns impressos que servem para esse pedido, e fomos aguardar para a entrada da secção de psiquiatria do Santa Maria.

Enquanto aguardávamos, comentámos uma conversa que tive com o Prof Dr pouco tempo depois da lei de alteração de nome e género ter saído. Nessa conversa eu interroguei-o sobre os referidos relatórios, e fiquei a saber que o Prof Dr, pelo menos nessa altura, não passava relatórios a ninguém sem saber ao certo o que exigiam as conservatórias. Depois de eu argumentar com o facto (digo eu) de as conservatórias não poderem exigir nada que não estivesse contemplado na lei, o Prof. Dr mostrou-se irredutível na sua posição.

Pouco tempo depois vim a saber por intermédio de terceiras pessoas (portanto não confirmado) que o Prof Dr afirmara “que era um homem muito ocupado e que tinha mais que fazer que estar a passar relatórios”. Pode não ter sido exactamente por estas palavras, mas o sentido era este. Pelo que conheci da pessoa em questão não tenho dificuldade nenhuma em acreditar que tenha efectivamente dito isto. Se foi somente como desabafo ou sentido, não faço a menor ideia. Portanto foi na posse destes dados que estava preparada para ir falar com o Prof Dr.

Era minha intenção informá-lo que o processo (finalmente) se encontrava lá e que a minha intenção era ver se ainda faltava alguma coisa e caso não faltasse, enviá-lo para a OM, e requerer o relatório para alterar a documentação.

Estávamos nós a conversar, vimos o Prof Dr a sair da ala dos gabinetes pelos vidros da porta. Quase a seguir, veio uma das funcionárias da secretaria informar-nos que o Prof Dr tinha uma reunião e não nos podia receber.

Uma coisa curiosa (ou não) sobre o Prof é que, seja porque motivo for, mesmo que seja só para fazer uma pergunta ou obter uma informação, insiste sempre em que se marque consulta. E as consultas são marcadas unicamente por ele e, regra geral, são-no para um espaço de tempo que media entre um mês e meio e três meses.

Portanto na prática isto implica, por exemplo, que vai-se lá hoje pedir para informarem o Prof para marcar consulta, vamos embora sem a consulta marcada e quando o Prof a marca recebe-se em casa a marcação. Ou seja, íamos em Setembro para pedir os relatórios e só o podíamos fazer lá para Novembro/Dezembro. Some-se a isto o tempo necessário para a sua emissão (o meu relatório de segunda opinião demorou uns oito meses e era só metade de uma folha.

Para que se compreenda bem de que tipo de relatório se fala, fica aqui um exemplo, retirado do site do Dr Décio:

“RELATÓRIO CLÍNICO
Ao abrigo da alínea b) do nº 1 do artigo 3º da Lei n.º 7/2011, de 15 de Março, atestamos que XXXXXXXXXXXXXX, portador/a do BI nº XXXXX, tem o diagnóstico de Perturbação de Identidade de Género (Transexualidade), não sofre de anomalia psíquica e tem sido regularmente seguido/a em Consulta por Equipe Multidisciplinar de Sexologia Clínica.
Por ser verdade, aplica-se o disposto no artigo 2º da supracitada Lei para efeitos de mudança de sexo e de nome próprio no Registo Civil.
Lisboa, XX de XXXXX de 2011”

Portanto, como se pode comprovar, não é extenso nem complicado nem demora séculos a ser feito. Uma pessoa que escreva/tecle devagarinho penso que poderá fazer uns dois documentos destes a cada cinco minutos.

Como curiosidade, no mencionado site do Dr João Décio Ferreira, encontra-se a seguinte frase, que me parece bem elucidativa do estado das coisas: “Sabemos que todas as Equipas estão a passar às pessoas a quem já fizeram o diagnostico, relatórios semelhantes . A única excepção é a equipa do CHLN/Hospital Santa Maria, do Prof Rui Xavier Vieira, que ainda não passou nenhum relatório mesmo aos já diagnosticados há vários anos e já operados com autorização da Ordem dos Médicos.” Penso que isto dispensa comentários.

Era sexta-feira, eu tinha um quisto sebáceo a infectar no meu ombro esquerdo, fomos para casa. A caminho decidi-me a ir aos relatórios clínicos da central de consultas e fiz o meu pedido de relatório. Sempre se poupa tempo.

É minha opinião que quem me devia passar o relatório devia ser o Dr Pedro Freitas e a psicóloga Íris Monteiro. Eles é que me acompanharam na maior parte do processo.

Nesse fim de semana fui ao SAP onde me espremeram o quisto a sangue frio no Sábado e no Domingo fui fazer um penso (e espremer mais um bocado).

Na Segunda, 19 de Setembro, fui ao centro de saúde novamente mudar o penso (e espremer mais) e depois seguimos para Santa Maria para tentar contactar o Prof.

O Prof não se encontrava lá, encontrava-se a fazer exames e nos mesmos impressos que sevem para requerer contacto, escrevi o que pretendia. Sabendo de antemão que o Prof nem devia ler o que lá estava.

Durante o resto da semana tive de ir todos os dias mudar o penso (e espremer) e estava sem dinheiro para poder deslocar-me a Lisboa para o tentar contactar.

Na sexta feira depois do penso (e das espremidelas) lá arranjei dinheiro para gasolina (5 euros chega) e lá fomos novamente para Santa Maria.

Novamente preenchemos os impressos e aguardámos na entrada. E desta vez o Prof veio. Mas em vez de nos chamar ao gabinete, veio ter connosco à entrada, já preparado para se ir embora.

Perguntou então o que queria. Eu disse-lhe do processo e tal,e ainda nem tinha falado nos relatórios já o Prof, com a voz um bocado alterada (quase a berrar) me interrompia. Foi mais ou menos isto que me disse: “OM? Qual OM? Você vem para aqui para fazer o processo do princípio. Mas afinal porque pediu transferência?”

Em voz alta disse-lhe que tinha ficado sem quem me fizesse o processo no Júlio, ao que ele retorquiu que “Havia equipe no Júlio”. E virando costas ainda disparou “Falamos depois disto na consulta”. E saíu porta fora.

Ainda fui atrás dele para indagar sobre os relatórios mas o Prof nem se virou, fazendo somente um trejeito com a cabeça.

A Lara nem teve tempo de falar. Bem, ela nem teve direito a um “olá” do Prof.

Não posso deixar de mencionar a completa falta de respeito demonstrada pelo Prof pelos seus pacientes. Não lhe fica nada bem como profissional. Quanto à sua educação, realmente títulos académicos nada têm a ver com educação. O modo como fala com as pessoas é bem prova disso.

Como já vou conhecendo o Prof, dirigi-me à secretaria para que me informassem para quando estava marcada a minha consulta. É que se fosse para daí a meses, tinha de continuar a lá ir, pois não estou para esperar quase um ano pelo relatório.

Basta pensar que durante as minhas idas ao SAP e ao centro de saúde, toda a gente me tratava no feminino até saberem do meu nome. A partir daí era no masculino ou neutro e com risinhos abafados e sorrisos óbvios.

E sinceramente já estou farta deste tipo de situações que acontecem em todo o lado. Deixei de ir ao centro de emprego para evitar que o mar de gente que sempre lá se encontra fique de olhos esbugalhados a olharem para mim sempre que o meu nome é mencionado. Porque até essa altura ninguém me dedica um segundo olhar, e a partir daí não tiram os olhos de cima de mim. Com as mais variadas expressões faciais. Já para não falar de empregos, em que só falta dizerem-me textualmente “Não nos contacte, nós contactá-lo-emos”. O que evidentemente nunca acontece.

Enfim, na secretaria informaram-me do que já estava à espera. Nenhuma consulta estava marcada. Fiz o pedido para marcação, mas garantidamente se encontrar outra pessoa que me possa fazer o pouco que falta do processo, nem penso duas vezes.

Quer dizer, depois de três anos de processo (os outros dois não contam devido a estes problemas em mudar de hospital e devido à tromboflebite de que fui vítima), de já ter a segunda opinião feita, O Prof Dr quer que inicie o processo do início? Então este tempo todo estive a fazer o quê? Das duas uma, ou eu sou mesmo doente mental e não vejo algo que devia ver, ou o Prof Dr nem pensou no que disse.

Psiquiatras e psicólogos devem servir para ajudar a melhorar a saúde mental dos pacientes, sejam eles quem forem, e não tornarem-se na origem de mais stress e depressão, para isso já basta o estado do país, e facilitarem a vida às pessoas, não para a complicarem ainda mais.

Cabe na cabeça de alguém isto? Se couber, óptimo, mas na minha não cabe.

Não posso deixar de mencionar aqui a culpa que cabe às pessoas transexuais. Muitas delas, por medo de represálias sobre os respectivos processos, baixam a cabeça e aceitam caladas e subservientes todas as indignações e mais algumas que alguns profissionais de saúde teimam em protagonizar. Se bem que por um lado seja compreensível, por outro lado temos de ter consciência de que temos direitos e como mulheres e homens não temos de nos sujeitar a indignações e tratamentos abusivos caladas. Por mais que não seja, sempre podemos e devemos denunciar publicamente estas atitudes. É o nosso dever como seres humanos.

Fica aqui a denúncia pública sobre o tratamento dado por determinados profissionais do SNS e sobre o, por vezes, funcionamento deficiente do mesmo. Estes casos, em vez de serem denunciados publicamente, são escamoteados por todos, profissionais de saúde, media e pelas próprias pessoas transexuais, atitude que leva a que os casos se perpetuem, sem resolução e sem virem a público.

Porque razão, cada vez que há um artigo nos jornais ou uma peça na televisão, estes problemas nunca são focados? Seria bom ver por uma vez um artigo ou uma peça televisiva que focasse estes ou outros problemas em vez da costumeira lenga lenga dos coitadinhos dos infelizes que sofrem tanto até fazerem as cirurgias. Era capaz de ajudar mais.

Por exemplo, porque razão, numa recente peça sobre transexualidade, não foi questionada a razão porque nos Hospitais da Universidade de Coimbra se anda a sonegar informação pertinente às pessoas transexuais? Saber-se que técnicas vão utilizar e em que medida essas técnicas representam (ou não) um avanço em relação às que se utilizavam não é um pormenor menor. Bem como o saber-se onde foram fazer o estágio, com quem e por quanto tempo.

Fim (até ver)