Transfofa em Blog

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quarta-feira, setembro 16, 2009

A luta pela despatologização trans (trans de transgénero, não de transexual) é, e pelos vistos vai continuar a ser, um tema nada consensual nem pacífico dentro da comunidade transexual e seus apoiantes.

E o curioso é que, invariavelmente, usam a transexualidade como exemplo da patologização trans. Curioso ou não, não passa de um aproveitamento da situação das pessoas transexuais para legitimar a luta contra o binarismo de género.

Numa conversa informal que tive com um defensor destas teorias, chegou-se à conclusão que cada pessoa é um género em si.

É uma teoria, tem a sua lógica própria, as suas razões e os seus apoiantes, como qualquer outra teoria. O facto de pessoalmente não concordar com ela não lhe tira nenhum mérito. Claro que também não dá.

O problema é que existe uma corrente que, por exemplo, diz que a identidade de género é apreendida pelo indivíduo, durante o seu crescimento. Bem, quem o diz lá terá as suas razões. As minhas, para não concordar, são simples. Se a identidade de género fosse apreendida pelo indivíduo, como se explica que, em crianças com quatro e cinco anos de idade, já saibam perfeitamente que são meninos ou meninas? É que, no caso de uma criança transexual, portanto que a sua identidade de género não coincide com a sua genitália, e que consequentemente foi criada e ensinada a comportar-se de acordo com o género ditado pela sua genitália, como se explica então que essa criança saiba perfeitamente que a sua identidade de género não corresponde ao que lhe têm estado a impingir?

Porque essa criança tem sido ensinada, portanto tem apreendido a comportar-se de um determinado género. Portanto, se a identidade de género fosse uma mera construção social, não existiam pessoas transexuais. Toda a gente apreendia o que a sociedade dizia que lhe competia, e evitavam-se muitos problemas e discriminações.

Mas o simples facto de existirem pessoas transexuais deixa esta teoria de rastos. A identidade de género não se apreende mas sim, nasce com o indivíduo. O que se apreende, isso sim, são os papéis de género, em que a sociedade afirma que os meninos comportam-se de uma determinada maneira e as meninas de outra. E eventualmente será a partir dos papéis de género que cada pessoa poderá começar a questionar-se sobre a sua própria identidade de género.

Outra teoria que também serve para confundir as coisas é precisamente a do binarismo de género. Já se sabe que o binarismo de género implica a existência única de dois géneros, o masculino e o feminino. Há quem diga que existem mais géneros, servindo-se erradamente e abusivamente das pessoas transexuais e intersexuais como exemplos de outros géneros.

No entanto, uma pessoa transexual tem a plena consciência que é ou masculina ou feminina. Também as pessoas intersexuais têm essa consciência. Daí vem a necessidade de se adequar a genitália e restante corpo ao género ditado pela nossa identidade de género, tanto no caso das pessoas transexuais como no caso das pessoas intersexuais.

Portanto, e apesar de repetidamente falarem em trans (que imediatamente se associa a transexuais),quando sentem a necessidade de justificar os pretensos géneros extra-binários, a realidade é precisamente a contrária.

Na minha opinião, a coisa é muito mais simples. Existem dois géneros, o masculino e o feminino, estanto um nos 0º e o outro nos 180º. Entre os dois existe uma gama quase infinita onde cabem todos. Cada pessoa mais ou menos masculina ou feminina. Mas géneros são só dois.

Que cada uma dessas pessoas tenha os seus direitos humanos é inquestionável. Que devem ser aceites também. Mas que cada uma seja um género, desculpem mas essa não engulo. Eu sou uma mulher transexual, sei-o bem, e também sei que não sou um terceiro género, ou quarto ou quinto, etc. Eu sou do género feminino, ponto final, doa a quem doer, concordem ou não. E assim como eu, ainda estou para encontrar quem seja transexual e não se considere ou do género masculino ou do feminino. É provavel que exista, debaixo deste sol cabe tudo. Mas ainda não a encontrei.

A transexualidade nada mais faz que reforçar a teoria do binarismo de género. E é por isso que é abusivo e até lesivo o uso da transexualidade como joguete de tentativas de legitimação precisamente do oposto.

E é a partir destas teorias, que advém a pretensa luta contra a patologização das pessoas trans. Note-se, da comunidade transgénero, que insistentemente inclui a comunidade transexual (a intersexual já obteve a nível internacional o reconhecimento da sua sigla I), as únicas pessoas forçadas a penarem em processos intermináveis são precisamente as pessoas transexuais. Mais ninguém tem esse estigma.

Portanto contra que patologização trans se luta então? Só pode ser a transexual. Travestis, andróginos, cross-dressers, nenhum é forçado a submeter-se a consultas de psiquiatria e psicologia para serem quem são. Só as pessoas transexuais têm esse estigma.

A luta pela despatologização é legítima? Sem dúvida nenhuma, aliás, é uma necessidade. O timing é que é muito questionável.

Existem muito poucos países em que as cirurgias de redesignação de sexo sejam comparticipadas ou pagas pelos respectivos serviços estatais de saúde. E esses países pagam essas cirurgias precisamente porque a transexualidade é considerada uma doença mental, apesar de qualquer psiquiatra ou psicólogo saber perfeitamente que essa doença só existe nos volumosos calhamaços sobre medicina (neste caso sobre sexologia, mais precisamente).

E é um erro crasso (expressão que refere os erros tácticos de Marco Licínio Crasso na batalha de Carras. Estes equívocos passaram à história através da expressão erro crasso, que remete a uma falha grosseira de planeamento com consequências trágicas.) o de se querer uma despatologização da transexualidade antes de se garantir, se possível constitucionalmente, as cirurgias e tratamentos referentes à transexualidade, bem como a obtenção da alteração de nome e género na documentação oficial, independentemente das cirurgias.

Depois de obtidos estes direitos, então sim, vamos lutar por uma despatologização. Antes será um verdadeiro tiro no pé.

Porque muitas pessoas transexuais, há alguns anos atrás, quando em Portugal a transexualidade era tabú e confundida com a homossexualidade, muitas mulheres transexuais arriscavam a vida em cirurgias nas mãos de verdadeiros carniceiros em Marrocos, por exemplo, onde em vez de ficarem com uma neo-vagina ficavam com um buraco, quando a coisa corria bem e não tinham infecções não raras vezes mortais.

Porque muitas pessoas transexuais, por impossibilidade de ganharem em tempo útil o montante necesário para se submeterem às cirurgias necessárias, viam no suicídio a única forma de fugirem a uma vida de discriminação e sofrimento.

Porque na tentativa de se submeterem à CRS, a única possibilidade que havia de se perfazer os montantes necessários (Portugal nunca foi conhecido como um país com bons ordenados) era uma vida de prostituição de rua, à mercê da polícia, dos energúmenos transfóbicos, dos proxenetas e dos traficantes de droga.

A inclusão destas cirurgias no SNS veio mudar isto. E considero isto sério o suficiente para não querer arriscar uma despatologização que, no caso de Portugal, certamente irá retirar estas cirurgias do SNS.

Ainda há poucos anos atrás, quando para Bastonário da Ordem dos Médicos foi eleito o Prof. Dr. Gentil Martins, um conceituado cirurgião nacional, um verdadeiro expert mundialmente reconhecido na sua área, mas infelizmente transfóbico, uma das medidas que tomou foi a paralização destas cirurgias. Muto bom cirurgião na sua área, mas quando nos metemos em áreas que não são as nossas, como neste triste caso, deixamos que convicções religiosas e conceitos mal formados levem a que se faça asneira.

Portanto nem sequer agora, que se praticam estas cirurgias, as temos como garantidas. Portanto será de se pôr em risco o pouco que temos por questões que na prática não servem para nada? Penso que neste caso será uma mais-valia o lutar-se por coisas que ajudem esta comunidade no seu dia-a-dia do que por teorias que, não questionando a sua justeza, pecam por muito pouco trazerem como benefícios, arriscando-se mesmo a serem prejudiciais.

Noutra conversa informal com um defensor desta despatologização, questionei-o sobre estes riscos. A resposta que obtive foi “Mas essas cirurgias não tarda saem do SNS”. Ou seja, como o mais provável é um dia destes, por exemplo com outro bastonário transfóbico ou com um governo de direita (que são conhecidos por não respeitarem os direitos humanos, salvo se estiverem incluídos), perder-se estas cirurgias, então que se percam já. A lógica da batata, diria eu.

Também gostam muito de dar o exemplo que a homossexualidade já foi considerada uma doença e que já não o é. Mas o que nunca dizem é que, no caso da homossexualidade, os homossexuais eram muitas vezes forçados a tratamentos variados na tentativa de se “curar” esse mal. Portanto a retirada da homossexualidade das doenças sexuais só veio trazer benefícios, pois nenhum homossexual necessita de qualquer tipo de cirurgia para o ser. O que não é, de todo, o caso das pessoas transexuais. Embora existam transexuais que não necessitem de uma CRS para se sentirem bem com elas próprias, uma larga quantidade necessita. Duas coisas completamente distintas e que em caso algum podem servir como exemplo mútuo ou como qualquer tipo de comparação (salvo nas discriminaçãoões sofridas, em que a comunidade transexual largamente segue em primeiro lugar, infelizmente).

Mas existem pessoas transexuais que apoiam esta despatologização. Por exemplo, quem não deseja ou necessita de fazer uma CRS ou quem já a fez. De resto, onde estão as (poucas) pessoas transexuais portuguesas sem medo de aparecerem ou sem vergonha de serem quem são, que apoiem esta pretenção?

Num evento próximo, a acontecer no Porto e em Lisboa, onde irá ser apresentada a campanha “STOP PATOLOGIZAÇÃO TRANS 2012” quem são os oradores? Transexuais (mesmo que não queiram ou já tenham feito a CRS)? Não, ou pelo menos não totalmente. No Porto será um activista gay, uma psicóloga e um activista pertencente à rede trans e intersexual de Barcelona, que não se sabe se é trans, intersexo ou unicamente activista. Em Lisboa, um representante dos médicos pela escolha (que pelos vistos quer escolher pela comunidade transexual portuguesa), o mesmo activista gay e o mesmo activista de Barcelona.

Ou seja, como se já não bastasse que qualquer pessoa que o queira que fale pela comunidade transexual, reivindicando em nosso nome pretenções sobre as quais não existe consenso nem discussão sequer, dentro da comunidade, agora até vêm de Espanha tentar convencer-nos das razões pelas quais lutar. O que não é de admirar, pois em Espanha, apesar de ter sido uma promessa do governo, o serviço de saúde espanhol ainda não contempla estas cirurgias.

Bem, eu continuo na minha, apoio toda e qualquer pretenção das associações e grupos transexuais espanhóis que sejam justas, mas em caso algum vou a Espanha falar por eles. E acho que as associações e grupos espanhóis deviam fazer o mesmo. No máximo falaria com eles, o que não acontece cá, pois representantes da comunidade, nem vê-los como oradores. Além de que devia haver debates e discussões dentro da(s) comunidade(s) visada(s) sobre isto, o que não aconteceu.

E falando em debates, na mailing list da Transgender Europe levantei precisamente estas questões. O feedback recebido foi que a TGEU apoia esta pretenção, salvo a comunidade T italiana, que tem problemas muito parecidos com os nossos, quer dizer, a possibilidade de governos de direita que neguem os direitos humanos LGBTTI, sendo que a qualquer momento poderão perder o pouco ou nada que detêm, e que curiosamente pensam da mesma maneira que eu, primeiro garantir os direitos essenciais para o dia-a-dia das pessoas transexuais, e só depois avançar-se para uma despatologização.



[UK]
Meet Britain's oldest tranny ... at 75
EX-miner Rachel Fleetwood bragged today that she is Britain's oldest transsexual — at the ripe old age of seventy-five.
Rachel not only OAP longing to change sex - VIDEO
Transsexual warned over tablets
'I'm Britain's oldest transsexual' , says ex-coal miner, 75

[Sérvia]
MOBILISATION URGENTE POUR LA PRIDE DE BELGRADE !!!
Message à diffuser massivement de toute urgence !!
La
Baltic Pride, organisée par la Belgrade Pride, qui doit avoir lieu à Belgrade le 20 septembre 2009, est menacée par des membres de groupes d'extrème droite et d'organisations extrémistes religieuses orthodoxes. Il y a eu un précedent en 2001 où les manifestants de la pride de Belgrade ont été violemment attaqués par des groupe d'extrème droite sans bénéficier d'aucune protection des forces de l'ordre et des autorités.

[South Africa]
[Blog/Commentary] Essentialism, gender and Caster Semenya
After hearing that Caster Semenya has gone into hiding and is receiving trauma counseling in the wake of the firestorm of publicity surrounding her gender verification tests, Peggy Orenstein’s piece in Sunday’s New York Times Magazine seems much more immediate and intriguing. In an article titled “What Makes a Woman A Woman?,” Orenstein details her own struggle with the concept of femininity when faced with the prospect of a double masectomy and the removal of her ovaries due to a genetic predisposition to reproductive cancers, tying it to the current hubbub surrounding Semenya’s gender.
The uncertain sex: 'Nothing in nature is normal'
[Blog/Commentary] A new turn in the Caster Semenya story
Lewis Blames South Africa Federation For Semenya Row
Bosses OK with ‘both-bit’ runners
Austrian sex-swap ski champ backs South African runner
[Commentary] Plight of intersex runner reflects society's prejudice
[Commentary] Don't judge women by their covers
Atleta sudafricana Semenya es hermafrodita, prensa
[Blog/Commentary] For Those Who Might Speak on Our Behalf
[Blog/Commentary] Segregation, Sex, Science and Sport
Carl Lewis: "Se ha tratado injustamente a Semenya"
Conmoción en el mundo por caso de atleta surafricana hermafrodita
Caster Semenya, ¿hermafrodita?

[Iran] [Blog/Commentary]
Iran as a Case Study in GLBT Politics
Iran is interesting from the perspective of GLBT politics for a number of reasons. First, it has flipped the roles of the Transgendered part of the GLBT spectrum and the GLB. Being homosexual in Iran (and getting found out) carries a death penalty; meanwhile the country seems ironically almost enlightened when it comes to transgender rights - creating a situation where GLB equality movements have to find a way to build on transgender rights in Iran.
[Blog/Commentary] Progress for Transgender People in Iran

[India]
Eunuchs demand right to vote
A eunuch in Mumbai has complained to a human rights agency watchdog seeking the right to vote for his community in the next month's Indian state assembly elections.

[Canada]
Convicted killer who jumped parole sought
Police here believe a man convicted of killing a transgendered prostitute may be on the loose in the Downtown Eastside.
Jatin Patel back in Vancouver police custody

[OK, USA]
Transgender woman to challenge anti-gay Okla. lawmaker
American author and political activist Susan Sontag once used cancer as a metaphor for the unknown. She said when politicians want us to fear something, they compare it to a disease such as cancer. We will then want to "cut it out" and get rid of it. Representative Sally Kern [R-Oklahoma City] knows this trick well.

[Uruguay]
Diputados vota ley que permite cambio de sexo en registros
Con apoyo de legisladores de todos los partidos y al filo del cierre del período parlamentario, la Cámara de Diputados votará mañana el proyecto que permite a los transexuales el cambio de nombre y sexo en documentos y registros públicos.
Votan una ley para dejar a los transexuales cambiar sus documentos

[USA] [Blog/News]
DNC governing body gets first trans member
The Democratic National Committee voted unanimously last week to welcome a transgender woman to its ranks, the first time that a major U.S. political party has appointed an openly transgender person to its national governing body.

2 Comments:

  • At 09 novembro, 2009 20:45, Blogger  said…

    Declaration of the Trans Rights Conference
    28th October 2009, Malta
    We, the participants of the European Trans Rights Conference, yearn for a Europe
    free from all discrimination1, where all people are valued equally irrespective of
    their gender identity and gender expression. We envision a Europe where people of
    all gender identities and gender expressions are fully respected and can live freely
    without any violations to their human rights and institutions’ interferences in their
    private lives, in accordance with the Yogyakarta Principles2. We want a Europe
    where health insurance funded adequate hormonal and surgical medical assistance is
    available in a non-pathologizing manner to all those trans people3 who seek it, and
    where no trans person is required to undergo any compulsory medical treatment
    (such as sterilization or gender reassignment surgeries) or a mental disorder
    diagnosis in order to change legal gender and/or name.....
    http://www.ilga-europe.org/europe/about_us/annual_conference/malta_2009 (anexo)

    Esta Declaração foi votada em Malta no dia 28/10/2009
    por 48 votos a favor,4 contra e 3 abstenções.

    31st European Conference of the International Lesbian and Gay Association
    13th ILGA-Europe conference
    FINAL MINUTES

    ...............A recommendation from workshop 17 to endorse the Declaration of the Trans Rights Conference
    (see annex 1) and to acknowledge its significance and the work and achievements of TGEU in
    bringing it to this point was approved by the conference after a vote:
    • For: 122
    • Against: 0
    • Abstentions: 16...............
    http://www.ilga europe.org/europe/about_us/annual_conference/malta_2009

     
  • At 10 novembro, 2009 02:36, Blogger transfofa said…

    Bem, essa declaração refere-se a trans de transgénero, não trans de transexuais.
    E cada vez mais me convenço de que estarem as pessoas transexuais incluídas nessa generalidade é lesivo para os nossos interesses.
    E cada vez mais me convenço de que são pessoas não transexuais a puxarem os cordelinhos.

     

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