Transfofa em Blog

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sábado, outubro 30, 2010

O Dr. João Décio Ferreira, Cirurgião plástico que trata das cirurgias de redesignação de sexo, divulgou uma mensagem, a qual reproduzo aqui na sua totalidade, seguida obviamente do meu comentário.

"Tem vindo a publico várias vezes, não só em Portugal mas também no Estrangeiro, algumas reivindicações sobre a desmedicalização e despatologização da Transexualidade.

Querem essas pessoas que qualquer indivíduo possa ser considerado transexual só pelo facto de se declarar transexual. Não seria, para essas pessoas, necessário nem licito que para alguém ser considerado/a transexual ter que se submeter a um estudo e diagnostico feito por Equipa Multidisciplinar de Sexologia Clínica.

Há ainda Organizações que apoiam essas pessoas, certamente com a melhor das intenções.

De facto a população Transexual é tão pequena que só por si não têm força reivindicativa. Para agravar isto ainda acontece que a maioria dessa população, já de si pequena, o que menos quer é "dar a cara", é ter protagonismos para "passar o mais despercebido/a possível". Os/as poucos mais afoitas/as aproveitam a "força" de organizações de Homossexuais ou LGBTs e juntam-se a essas organizações para reclamar os seus justos direitos. Correm o risco de serem confundidos com homossexuais pela população em geral mal informada, mas é um preço que assumem ter de correr. São essa Organizações que apoiam estes movimentos pela Despsiquiatrização da Transexualidade.

Esse apoio só pode ser fruto de desconhecimento do que é a Transexualidade.

De facto o que acontece é que se dá uma concentração nessas Organizações de Pseudo-Transexuais.

Como? Da maneira mais fácil. Como a grande maioria dos elementos dessa organizações desconhece o que na verdade é um Transexual admitem nas suas fileiras os/as verdadeiros/as e os/as falsos/as Transexuais. Rápidamente os/as verdadeiros/as Transexuais, aquelas pessoas que já têm diagnostico feito ou que estão ainda nas consultas diagnosticas mas que de facto são Transexuais, perante os disparates dos/as Falsos-Transexuais "abandonam o barco". "Não querem ser confundidos com essa gente" (palavras que me foram ditas e repetidas por muitos Transexuais) .

No fundo essa demarcação pode representar até certo ponto um elemento para o diagnostico da sua Transexualidade.

Percebe-se assim como essas Organizações basicamente de Homossexuais apoiam estas manifestações de Falsos-Transexuais. De facto ele estão lá dentro como Membros delas.

É pena pois estão a prejudicar grandemente a toda a população de Verdadeiros Transexuais, que não se revêem nessas Manifestações, mas que vêem a sua boa imagem prejudicada junto da opinião publica que assiste a esses tristes espectáculos.

De facto a pretensão das pessoas que reivindicam a desmedicalização e despatologização da Transexualidade não têm a mínima sustentação científica para apoiar essa sua posição. Antes pelo contrário, essas pessoas têm de facto pouca convicção quanto à sua transexualidade como o prova o facto de se negarem a ser observadas por profissionais competentes para lhes confirmar o diagnostico.

Será que alguém no seu prefeito juízo acha normal uma pessoa passar mais de 20 anos a recusar um processo de diagnostico que pode durar 2 anos, com o argumento de que 2 anos para um diagnostico é muito tempo?

Será que alguém tem duvidas em considerar que uma atitude desta só pode ser fruto uma qualquer perturbação psiquiátrica ou demonstrar a falta de certeza que essa pessoa tem no diagnostico que diz ter ?

De facto andar mais de 20 anos a fugir de quem lhe pode dar o diagnostico em 2 anos ... é como o Diabo a dizer-se Católico e a fugir da Cruz.

Ora vamos lá tentar esclarecer de maneira simples e resumida, para todos entendermos, o que é um transexual.

Um Transexual é alguém que nasce com um corpo de um sexo e com um cérebro de um género contrário ao sexo do corpo. Nasce com corpo de homem mas com cérebro de mulher ou visse versa.

Esta situação tem vindo a ser estudada por especialistas de várias áreas clínicas desde há mais de um século. Os estudos mais importantes foram feitos por Harry Benjamin em meados do século XX e por isso foi proposto e aceite chamar-se também à Transexualidade Síndrome de Harry Benjamin.

Foi Harry Benjamin que também definiu as regras a seguir para diagnosticar esta situação clínica. Essas regras têm vindo a ser actualizadas por uma organização internacional que se chama Harry Benjamin Association e que deu origem recentemente a WPATH que engloba médicos, psicólogos, juristas, sociólogos, etc., em resumo, engloba todos os que contribuem não só para o diagnostico e tratamento mas também para o apoio legal, social etc. dos transexuais.

O que faz uma Equipa Multidisciplinar de Sexologia Clínica ?

Segue as normas estabelecidas pela « World Professional Association for Transgender Health's Standards of Care for Gender Identity Disorders » para estudar a pessoa “possivelmente” transexual.

O que faz em concreto?

De facto para chegar ao diagnostico de transexualidade primeiro há que excluir toda a patologia psiquiátrica que possa levar a situações aparentemente semelhantes. Depois tem de determinar o género do cérebro com que uma pessoa nasceu e ver se o corpo está normal para o cariótipo, isto é, se não há alterações hormonais etc. .

Se no fim verificarmos que a pessoa estudada tem um CORPO NORMAL de um sexo e um CÉREBRO NORMAL de um género oposto ao sexo do corpo e o indivíduo estudado apresentar uma repulsa total pelo corpo que tem, teremos o diagnostico de Transexualidade.

Esta não concordância entre sexo (do corpo) e género (do cérebro), a transexualidade, provoca grande sofrimento à pessoa e é classificada nas classificações internacionais como doença. De facto estamos perante uma malformação congénita em que o género do cérebro não condiz com o sexo do corpo.

Se fossemos nas reivindicações destes grupos, de facto não representativos dos verdadeiros transexuais, qualquer um que dissesse que era Napoleão ou Galinha teria no 1º caso direito de ser considerado Imperador de França e no 2º caso deveria ser autorizado a viver num galinheiro e eventualmente até acabar no churrasco.

Não é compreensível que haja pessoas com patologia psiquiátrica a declararem-se Transexuais, fruto dessa patologia psiquiátrica de que sofrem.

Não é aceitável que essas pessoas venham para a praça pública comprometer perante a opinião pública os e as Verdadeiros/as Transexuais.

Não é compreensível que haja organizações credíveis que apoiem estes e estas psicopatas, a veicular mentiras a torto e a direito.

Chegam mesmo a declarar que as minhas opiniões não são credíveis porque eu só lido com uma pequena minoria dos transexuais portugueses, quando toda a gente sabe que essa pequena minoria a que se referem é de facto TODOS OS TRANSEXUAIS PORTUGUESES COM DIAGNOSTICO FEITO, ou seja TODOS OS VERDADEIROS TRANSEXUAIS PORTUGUESES.

Já vi também escrito que não respeito os Harry Benjamin Standards of Care quando de facto até sou Membro do organismo que os representa, a WPATH.

Bastam estes exemplos para se avaliar a índole dessas pessoas e o logro em que estão a cair as Organizações apoiantes desta gente.

Como é possível alguém dizer-se transexual e ir contra Harry Benjamin que dedicou a sua vida a estudar esta discrepância entre corpo e cérebro, entre sexo e género, a que depois foi dado o nome de Síndrome de Herry Benjamin.

Coitado do Herry Benjamin !!! ... não merece que meia dúzia de "malucos" e "malucas" façam isso à sua memória."

E posto isto, segue-se o comentário

Antes de mais, a minha posição em relação à campanha STOP Patologizaçáo Trans 2010 é a de não aderente. Não concordo com a definição de "identidades trans" que norteia a campanha, não concordo com a inclusão da transexualidade nessas ditas "identidades trans" e não concordo com a adesão de activistas portugueses a essa campanha. Esta minha última decisão é unicamente tomada em relação à política portuguesa e a medidas nacionais e à sua localização temporal. Se vivesse em Espanha ou França este último ponto não teria razão de existir.

Isso não me impede de reconhecer mérito em determinadas reivindicações existentes na dita campanha, e de conhecer pessoalmente activistas transexuais (e não só) que apoiam a campanha.

Posto isto começo por fazer notar que tenho tido conhecimento dos manifestos da campanha e nunca vi inserida nenhuma reivindicação sobre a "desmedicalização" da transexualidade. Esta é novidade. Tanto que no manifesto referente à última acção dos apoiantes da campanha, está lá escrito, preto no branco, "Defendemos o acesso à assistência médica e tratamento hormonal e cirúrgico pelos serviços públicos de saúde às pessoas trans que o procurem." Não faço a menor ideia de onde desencantaram esta pérola da contra-informação, mas deve ter sido engano. Só pode.

Novamente outro engano, a campanha não quer nem nunca quis que "qualquer indivíduo possa ser considerado transexual só pelo facto de se declarar transexual." O que a campanha considera é que "O Estado não deve ter qualquer jurisdição sobre os nossos nomes, os nossos corpos e as nossas identidades." Essa é a luta da campanha e em lado nenhum vem reivindicada a afirmação do Dr Décio.

Assim sendo, não tem cabimento o tal "desconhecimento" da transexualidade alegado pelo Dr em relação a organizações apoiantes da campanha. O Dr é que não deve ter reparado que a campanha se dirige a um segmento muito mais vasto da população do que as pessoas transexuais, comumente denominada de comunidade transgénero.

Para quem não sabe, transgénero é um termo que engloba toda a gente que saia fora da normatividade de género. Ou seja, engloba pessoas travestis, cross-dressers, andróginas, intersexuais e transexuais. Assim, embora a transexualidade lá esteja incluída, a campanha é pelas pessoas transgénero e não exclusivamente da transexualidade.

De seguida vem a afirmação dos "pseudo-transexuais" e os "verdadeiros e falsos transexuais". Não vem explicado qual a definição do Dr de pseudo-transexuais nem de falsos transexuais, mas pelo discurso percebe-se que o Dr se refere aos transexuais que não desejam submeterem-se à CRS. Ou simplesmente quem não concorde com ele e quem concorde.

Já referi inúmeras vezes que a(s) cirurgia(s) a que uma pessoa se submete são uma consequência da transexualidade, não uma causa. Não é por querer cirurgias de redesignação de sexo que uma pessoa é transexual, mas sim querem-se essas cirurgias devido à transexualidade. O problema em Portugal é que a larga maioria dos psiquiatras e psicólogos mais antigos têm esta maneira de pensar, que cada vez mais está a cair por terra, mas que em Portgal se encontra bem enraizada, fruto de quem se encontra nas posições chave não terem tido abertura suficiente para se irem actualizando. Até admira que não advoguem os choques eléctricos, como nos era feito antigamente quando os próprios "especialistas" confundiam a transexualidade com homossexualidade.

E quanto aos "verdadeiros transexuais" abandonarem o barco para não serem confundidos, nada mais falso. Conheço pessoas transexuais que já terminaram o seu processo, já com cirurgias feitas, que apoiam a campanha.

Entretanto, o Dr já arranjou mais uma maneira de diagnosticar quem é transexual ou não: quem apoie a campanha não o é e quem não apoie é. Efectivamente não existe maneira de se diagnosticar a transexualidade. Não há testes fiáveis, exames, nada. Vai daí, os "especialistas" nesta matéria têm de descobrir maneiras de o dizer. E como não se sabe, inventa-se: as pessoas transexuais têm de querer ser operadas, e não podem apoiar a campanha. Pimba. Qualquer dia uma pessoa transexual, para ser reconhecida como tal, terá de pertencer a um qualquer partido político do agrado dos "profissionais" ou não é transexual.

Ainda há bem pouco tempo atrás, uma transexual feminina (MtF) tinha de sentir atracção por homens ou não era considerada transexual. Para os transexuais masculinos (FtM) era o mesmo, numa clara e inequívoca confusão entre transexualidade e homossexualismo. Isto é bem demonstrativo da sabedoria existente entre os "especialistas" da transexualidade.

Nos standards of care emitidos pela WPATH, que o Dr tão bem cita, vem lá explicitamente que o tratamento hormonal deve ser administrado a quem o deseje, mesmo que a pessoa não seja transexual. Em Portugal isso não é feito.
Aconselham a remoção da pilosidade facial. Em Portugal não é feito.
Aconselham a realização das cirurgias na totalidade ou somente as intervenções que a pessoa desejar. Em Portugal querem forçar a CRS.
O 1º critério para a transexualidade baseado no ICD-10 (International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems 10th Revision) diz que é "O desejo de se viver e ser aceite como membro do sexo oposto, GERALMENTE acompanhado pelo desejo de tornar o corpo o mais congruente possível com o sexo preferido através de cirurgias e tratamentos hormonais. O Dr deve ter parado de ler na primeira vírgula.
Parece que em Portugal só seguem as standards of care quando não colidem com os próprios preconceitos. É assim qque seguem as recomendações da wpath???
Quem desejar confirmar pode clicar aqui

A partir daqui é só referências aos "verdadeiros transexuais". Considerando o pouco que a população em geral sabe sobre a transexualidade, pergunto-me qual será a boa imagem que é denegrida pelos apoiantes da campanha quando lutam pelas suas convicções? Então agora a luta por convicções já não enobrece as pessoas mas sim o contrário? Ou estará o Dr a referir-se a quem não concorde com as suas teorias? Parece-me mais ser este último caso, mas posso estar enganada. O termo "verdadeiros transexuais" foi uma nomenclatura que esteve muito em voga nos anos 60 e 70, tendo caido em desuso hoje em dia, excepto por alguns resistentes da velha escola que vêem as suas convicções claramente ultrapassadas e que teimosamente se agarram aos velhos clichés da sua época. Similar ao que aconteceu com muitos ilustres colegas de Charles Darwin quando ele divulgou o seu livro "A origem das espécies".

Agora temos uma complicação. O Dr afirma que "essas pessoas (apoiantes) têm de facto pouca convicção quanto à sua transexualidade como o prova o facto de se negarem a ser observadas por profissionais competentes para lhes confirmar o diagnostico." Temos de ver aqui uma coisa. Em Portugal a única razão pela qual uma pessoa transexual suporta anos e anos (sim, não são só os dois anitos de que o Dr fala) de consultas, testes, consultas e mais consultas é para se submeter à CRS. Quem não deseja submeter-se à CRS ia fazer um processo para quê? Para andar a marcar passo? Porque gosta das perguntas dos psiquiatras? Basta pensar-se que no final do processo não se tem nenhum diagnóstico de transexualidade, mas sim uma carta da Ordem dos Médicos que nada mais diz que "fulano ou fulana de tal (nomes de baptismo) está autorizada a submeter-se à Cirurgia de redesignação de sexo".

Obviamente que ninguém no seu perfeito juízo vai andar em consultas e testes durante uma enormidade de tempo para receber um papel a autorizar uma cirurgia que a pessoa não deseja. Quer dizer, isto parece-me tão evidente que me pergunto como pode o Dr afirmar que essas pessoas têm medo? Uma pessoa que se assume de um género, que vive de acordo com esse género, que tem a sua identidade de género desse género, que usa diariamente um nome condizente com esse género, não é transexual só porque não fez testes, desde quando? Ou mesmo emoldurarem a autorização para a porem numa parede muito ao jeito dos diplomas médicos nas paredes dos consultórios privados.

Identidade de género é a percepção que uma pessoa tem de pertença a um determinado género. Toda a gente a tem. Na maioria da população ela é condizente com a genitália. Nas pessoas transexuais não. E como a identidade de género é imutável (pelo menos à luz do conhecvimento actual), torna-se assim no cerne da transexualidade.

Qualquer pessoa transexual sabe perfeitamente bem que, muito, muito antes de decidir iniciar um processo, se sentia como não fazendo parte do género atribuído à nascença. E não é por causa disso que não era transexual antes de iniciar o processo. Nem deixa de o ser no seu final.

O processo devia ser utilizado como meio para ajudar as pessoas, em vez disso é usado como meio de negar a identidade de género a quem não deseje o que outros acham que devia desejar.

Portanto, Dr Décio, não é a pouca convicção que as pessoas têm em si próprias que as afasta do processo mas sim os moldes em que esse processo é feito. Pura e simplesmente. E não só em Portugal mas em todo o lado é assim.

O Dr também esqueceu (obviamente) os inúmeros processos que demoram muito mais de dois anos. Já houve casos em que chegaram a demorar dez anos, sete anos. E não são tão poucos como isso.

Eu diria que uma pessoa transexual é alguém que nasce com uma identidade de género oposta à sua genitália. O facto de não saberem distinguir entre a transexualidade e situações semelhantes é bem demonstrativo do estado em que se encontra esta matéria. Se uma pessoa não transexual pode sofrer de patologias psiquiátricas semelhantes à transexualidade, eu pergunto porque razão uma pessoa transexual não pode sofrer também de uma patologia idêntica? A transexualidade confere imunidade a essas outras patologias? Não me parece. No entanto, no caso de uma pessoa transexual, é-lhe imediatamente negada a sua identidade de género. E porquê? Porque a medicina não consegue diagnosticar a transexualidade, só consegue despistar patologias semelhantes. Então vai-se pelo caminho mais fácil, nega-se a pessoa.

O ser humano é um dos animais mais adaptáveis. Conseguiu adaptar-se a quase todos os meios ambientais, sendo que unicamente não conseguiu colonizar a antártica. Assim em nada me surpreende que existam pessoas que, apesar de terem uma identidade de género oposta à sua genitália, não a rejeitem nem sintam uma "repulsa total" pelo corpo que têm. Obviamente, e apesar dos standards of care, o Dr não pensa assim.

As causas da transexualidade ainda são desconhecidas da ciência. Teorias existem muitas e variadas, tantas quantas as pessoas que as pensam. Faz-me espécie como é que o Dr sabe que estamos perante uma "malformação congénita". Talvez não fosse má ideia o Dr explicar ao resto do mundo que afinal descobriu a causa da transexualidade.

Não é compreensível existirem clínicos intervenientes nos processos de transexualidade que tenham posições contra os standards of care da wpath, e que apesar disso a citem.

Como é possível citarem Harry Benjamin e irem contra os seus ensinamentos? O Dr Harry Benjamin efectivamente especializou-se no estudo dos casos de transexualidade. Foi ele o criador das denominações de transexualidade primária, secundária, numa tentativa de graduar a intensidade do sentimento da pessoa. A quem se queria operar e rejeitava intensamente a sua genitália denominou primaria, e por aí em diante. Mas o próprio Dr Harry Benjamin não refutou um facto que o Dr Décio parece não querer aceitar: que mesmo com graus menores de intensidade, essas pessoas eram transexuais. Por isso chamou transexualidade isto e transexualidade aquilo. Mas sempre transexualidade. Pela nomenclatura que criou percebe-se perfeitamente que teve de reconhecer que existiam pessoas transexuais que não desejavam as cirurgias, na sua totalidade ou parcialmente.

Portanto uma pessoa transexual deve ser reconhecida pela sua identidade de género, independentemente de desejar ou não submeter-se a cirurgias, tal como é mencionado nos standards of care da wpath, quer vá contra os preconceitos de uns e outros ou não. E estar a chamar de malucos e malucas a pessoas que pensem de uma maneira diferente da sua, só demonstra a sua prepotência e arrogância sem lhe dar mais um pingo de razão.

Considero que por ser cirurgião plástico e lidar exclusivamente com pessoas transexuais que se querem operar a razão principal de, inclusivamente, ir contra os standards of care e pensar que transexual só é quem se quer operar. Também nas directivas da CE sobre as pessoas transexuais é referido vezes sem conta que se deve reconhecer a identidade de género de cada ser humano independentemente dos desejos ou não de se submeterem a cirurgias. Considero a sua atitude neste aspecto lamentável, e faço votos que pense em tudo o que está escrito aqui. Se conseguir desenredar-se da sua amálgama de preconceitos acredito sinceramente que mudará de opinião.

Se não mudar, pelo menos abstenha-se de ofender os outros.

3 Comments:

  • At 01 junho, 2011 14:17, Blogger Sandra M. Lopes said…

    Olá! Só hoje tive o prazer e o privilégio de ler este artigo e a refutação das posições do Dr. Décio. E obviamente que estamos numa época diferente, em que a legislação actual já contempla os casos de transexuais secundários, o que fez que em apenas uma semana após a nova lei ter entrado em vigor, mais indivíduos mudaram legalmente o seu nome e sexo do que a totalidade de casos desde 1975. Não é uma estatística de menosprezar!

    Ocorre-me que a posição do Dr. Décio, se bem que conservadora e desactualizada, faz algum sentido à luz da capacidade do Serviço Nacional de Saúde poder assegurar com eficácia tantos casos de transexualidade, agora que esta não se encontra confinada a um tipo "clássico" segundo as definições fora de moda dos anos 70 e 80. Embora o Dr. Décio não use essa argumentação, não me custa a acreditar que tenha receio que o sistema colapse com uma explosão "súbita" de centenas ou milhares de casos novos de transexuais secundários que, até agora, não faziam qualquer ideia do que eram (é o meu caso sem dúvidas; sempre pensei que era "apenas uma crossdresser", mas agora suspeito que não...). Esta "explosão" de novos casos fará com que seja difícil atender prioritariamente aqueles que o Dr. Décio identifica como sendo "mais urgentes": por outras palavras, aqueles para os quais a única alternativa à CRS é o suicídio. Referiu-me uma socióloga que neste grupo 50% se suicida antes dos 30 anos por não conseguir lidar mais com a sua situação pessoal; os restantes muito provavelmente encontram-se em estados depressivos que os tornam não-funcionais na sociedade (acabando por ter dificuldades em acabar os seus estudos e obter uma profissão que lhes garanta um rendimento suficiente). Tratá-los com a CRS, com a taxa de sucesso conhecida (vejo citados números como 97 a 98%; mas até já ouvi citado para o caso português uma taxa de 100% de sucesso — ainda estou à espera de encontrar um artigo científico que confirme estes números), fará todo o sentido enquanto prioridade.

    Mas isso não quer dizer que os restantes casos que não se enquadram na definição "clássica" dos anos 70 e 80 não "mereçam" ser também tratados, ou, pior, que tenham de ser sujeitos ao ultraje e ofensa de serem considerados "falsos transexuais". O Dr. Décio não tem papas na língua (pelo menos nos artigos que escreve), e é evidente que é assim que pensa, mas não me parece que o faça com legitimidade, nem com a autoridade que deveria ter por ter estado tantos anos ao serviço dos transexuais desesperados que ajudou a restabelecerem as suas vidas com dignidade. Penso apenas que a sua "discriminação" e o seu "preconceito" contra as novas classificações que admitem transexualidade sem CRS (entre outras coisas), e assumem que grande parte dos transexuais não são pessoas terminalmente depressivas (no sentido que não consideram o suicídio como única alternativa à CRS, mas que conseguem lidar com o facto de passarem o resto da vida num corpo oposto ao da sua identidade de género, e têm vidas familiares normais), advém do facto de acreditar que o SNS não tem capacidade para lidar com tantos casos.

     
  • At 01 junho, 2011 14:17, Blogger Sandra M. Lopes said…

    E qual é a alternativa? Havendo um público-alvo tão vasto, começará a interessar os hospitais privados (o Dr. Décio refere no seu site os contactos estabelecidos com o Hospital de Jesus que parece estar interessado em acompanhar casos de transexuais). Ora aqui cai-se no risco pelo qual os americanos começaram a passar nos anos 90: o da "banalização" da transexualidade, "empurrando" muitos "clientes-pacientes" para terapia hormonal e CRS, mesmo que não precisassem, apenas porque havia negócio nessa área. Ainda ontem falei com um advogado que me contou que defendeu um caso de um prisioneiro que era fortemente discriminado e sujeito a atrocidades no estabelecimento onde estava. Foram-lhe sucessivamente rejeitados os pedidos de transferência. Então resolveu "assumir-se" como transexual, pois mudando legalmente de sexo, não haveria como o manterem no estabelecimento onde estava. Isto é uma situação complicada do ponto de vista médico. Nos Estados Unidos, pelo menos nos estados menos conservadores, este tipo de coisas é perfeitamente possível. Até nem digo que a pessoa em questão não fosse, de facto, um transexual secundário, ou pelo menos crossdresser autoginecofílico. Mas podia também não o ser. O "facilitismo" por questões de negócio ou oportunidade não é necessariamente uma boa ideia.

    Talvez seja contra isto que o Dr. Décio erga a sua voz. Se sim, terei de concordar com ele até um certo ponto. Mas só se forem essas as suas verdadeiras razões; porque de resto, pela forma como escreve, apenas vejo um certo "congelamento" de atitude relativamente a classificações ultrapassadas. Um bom investigador, um cientista que se digne do seu nome, não tem outro remédio senão ter uma mente aberta e aceitar modificações a teorias vigentes quando os estudos mostram argumentação que as sustente, e quando não há estudos a refutar essas argumentações. Negar os estudos recentes e dizer "eu é que tenho razão!" não é uma atitude legítima para um investigador científico, seja em que área for. O recurso à autoridade não é válido em ciência a não ser que essa autoridade tenha argumentos válidos baseados em investigação publicada e revista pelos seus pares a comprovar as suas afirmações. O Dr. Décio não tem nada disso, tem apenas uma "ideia" de que o mundo se divide entre "verdadeiros" e "falsos" transexuais, mas não explica como chegou a essas conclusões de uma forma científica e replicável em laboratório, e publicada em revistas competentes.

    Não é difícil refutar o Dr. Décio do ponto de vista científico. Talvez seja mais difícil refutar a argumentação de que o SNS não está preparado para lidar com tantos casos diferentes. Ou sequer que a sociedade portuguesa tenha capacidade de aceitação de tantos casos. Uma coisa é um ou dois casos por cada 100.000 pessoas. Quando começarem a ser um ou dois casos por cada cem pessoas — não é de todo impossível que assim seja, olhando para estatísticas de outros países — como é que este país irá encarar a transexualidade?

    Um beijinho grande e obrigada pelas tuas preciosas informações.

     
  • At 02 junho, 2011 04:46, Blogger transfofa said…

    Bem, vamos lá responder (ou tentar) a este testamento (LOL ou hehehe).

    Em primeiro lugar obrigada por considerares esta leitura um privilégio, mas será talvez um pouco exagerado.

    Primeiro não considero correcta a ideia de ou a necessidade de existir uma graduação da transexualidade. Isso é para quem deseje uma continuação de variados tipos de discriminação. Ou se é transexual ou não se é, ponto. E quem é tem o direito de escolher se se quer submeter a cirurgias ou não, sem que isso diminua os seus direitos.

    A capacidade do SNS é outro assunto e completamente à parte. Existem vários casos em que o SNS não tem capacidade de responder atempadamente e não é por isso que se vai negar o que as pessas têm (ou neste caso o que as pessoas são).

    As cirurgias continuam a ter o mesmo procedimento. Quem desejar alterar nome e género tem de fazer um processo como qualquer outra transexual.

    Portanto não vejo esse problema das prioridades, nem vejo razão nenhuma para existirem prioridades entre transexuais.

    Não tenho informação sobre quantas pessoas alteraram já o nome e género na documentação, mas essa súbita explosão só se pode referir a quem já estava em fase de processos, portanto há um boom inicial e depois pára.

    E não se deve ligar muito ao que dizem os psicólogos, sociólogos, etc. Já vi alguns a dizerem verdadeiras barbaridades, portanto há que ter calma e estudar-se a siuação primeiro.

    Também não conheço nenhuma pessoa transexual que não deseje fazer tratamento hormonal. A existir ainda não tive conhecimento de nenhuma.

    E essa de um prisioneiro assumir-se como transexual por esse motivo, essa pessoa não é transexual. E duvido que alguém o faça, os processos demoram tanto tempo e fazem-se tantos testes que dificilmente essa passaria. É possível, sim, mas não provável.

    O Décio não explica pura e simplesmente porque não existe nada que comprove a transexualidade. Nenhum teste físico, nada. E como não sabem como aparecem as pessoas transexuais, partem de um ponto de vista em que "tem pénis é homem. Se diz que é mulher então é maluco". Daí a comparação tão do agrado do Décio com os "napoleões".

    Quanto ao futuro, enquanto não se investir serimente numa educação sexual escolar que foque estes assuntos de uma forma séria e educativa, não me parece que a discriminação acabe.

    Jinhos

     

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