Transfofa em Blog

Um espaço especial e pessoal, para dar relevo a cada momento único - Bem Vind@ ao meu Blog!

sábado, março 11, 2006

Este caso de Gisberta, e todo o alarido (perfeitamente justificado, diga-se) que se gerou à volta dele, fez-me pensar em diversas questões (que pus a mim própria também, como apoiante das diversas iniciativas).

Questões incómodas, talvez mesmo desagradáveis, mas que se impõem.

Antes de ter sucedido o que aconteceu, quem era a Gisberta? Pela minha parte nem sabia da sua existência e, segundo penso, tirando a ªt e a Abraço, nenhuma das organizações que tanto bradam agora imaginavam sequer a sua existência.

Onde estavam todos aqueles que agora tanto bradam quando ela precisava de uma ajuda amiga para não cair nas malhas da droga? Onde estavam quando ela foi obrigada a ir viver para uns caixotes de papelão? Porque ninguém a ajudou a alugar um quartinho? Onde estava toda a gente quando ela foi selvaticamente atacada dia após dia?

Eu estava confortavelmente em casa, bem abrigada na minha ignorância, sem sequer imaginar que ela existia. Suponho que toda a restante gente também, salvaguardando a ªt e a Abraço e as poucas amigas dela.

Agora, muita gente conhecida aparece com o nome nas iniciativas pela Gisberta, as organizações, que nem sequer sabiam que era uma mulher transexual, querem mundos e fundos em nome dela. Querem inscritos os seus nomes nas iniciativas, muitos por ser "politicamente correcto". É sempre bom ver-se o próprio nome, ou o nome da organização, nas listas apoiantes.

Mas ninguém estava lá para a ajudar a não cair nas malhas da droga, para tentar evitar que fosse mais uma portadora do vírus HIV, para a ajudar a sair do pardieiro onde dormia. Nessa altura, eu incluída, toda a gente a ignorou.

E chegou-se ao cúmulo de, nas listas apoiantes, em vez de toda a gente que quisesse apoiar pudesse ver o seu nome, seleccionarem somente os nomes mais sonantes e/ou nomes de amigos. Assim, o meu e o de muitos (penso que seria muito azar ter sido a única a ter sido discriminada) não apareceu, depois de me ter inscrito. Parece que o meu nome só serve para listas de apoio a casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Quando se trata de solidariedade com outra trans já não serve, talvez por não ser sonante, talvez por também ser trans.

Toda esta hipocrisia fez com que, apesar de apoiar, decidisse não aparecer na vígilia organizada para esta quinta-feira (ainda por cima um dia pessimamente mal escolhido, por coincidir com a tomada de posse de Cavaco Silva como presidente), não fosse a minha presença lá tornar-se tão incómoda como o meu nome nas listas de apoio. Afinal eu seria só uma trans, e como sempre, as trans são incomodativas. Em vez disso, fui ao cinema ver finalmente o "TransAmerica", filme que recomendo que seja visto por toda a gente.

Como trata de assuntos comuns a todas as trans, independentemente do sítio onde se viva, o filme toca-nos de perto. Em cenas que para a maioria das pessoas são cómicas, para nós são dramáticas. Realmente quem não conseguir sentir o filme, ou achá-lo enfadonho é porque não pode ser trans de tão comum que são as experiências ali relatadas.

Na generalidade, o filme está correcto a nível informativo. Felicity está excelente na interpretação, o que cada vez me convence mais que só não ganhou o Óscar de Melhor Actriz Principal por ser difícil de engolir pela Academia de Hollywood que o ganhasse interpretando o papel de uma mulher transexual. O filme tem bom ritmo com poucos ou nenhuns pontos mortos, sendo por todas estas razões que torno a aconselhar vivamente que toda a gente o veja, seja transgender ou não.

E sobre a Gisberta não faço tenções de postar mais. Afinal nem a conhecia, nem sequer sabia que ela existia. Injusto? Sim, é. Mas não mais injusto que aproveitarem-se do caso dela para aparecerem com o nome nos jornais. Não mais injusto que bradarem aos céus, agora que ela morreu, e ignorarem-na completamente quando estava viva. Não mais injusto que chamarem-na de "o" isto, "o" aquilo, travesti, etc. pelas mesmas organizações que agora tanto a querem defender, e órgãos de comunicação social, quando era, na realidade, uma mulher transexual.

Quando estava viva era incómoda, uma trans, sem-abrigo, toxicodependente, portadora do vírus da SIDA e prostituta. Agora, depois de morta, é um ícone da luta pelos direitos das minorias.

Quão irónico não é tudo isto...